Saúde

Zika vírus expõe caos na saúde brasileira e microcefalia pode ser mais comum do que se pensa

Existe uma corrida desenfreada para descobrir a causa ou as causas da microcefalia que atingiu vários recém-nascidos brasileiros nos últimos meses. Há relatos de até 5.600 casos no Brasil. A Organização Mundial da Saúde e outras autoridades forçam a barra tentando empurrar goela abaixo uma associação entre Zika vírus e a microcefalia, porém novos questionamentos surgiram e agora duvida-se até dos dados brasileiros que são considerados defasados e incompletos.

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O Brasil, antes do surto de Zika vírus, registrava 150 casos por ano de microcefalia o que em proporção seria 0,5 casos para cada 10 mil nascimentos. Já nos Estados Unidos, para cada 10 mil nascidos, os números da microcefalia são de 2 a 12 casos. Isso mostra que os cuidados com a natalidade no Brasil estão melhores que nos EUA? Muito pelo contrário, mostra que o Brasil fracassa em registrar todos os casos devido a um sistema de saúde sucateado.

Para muitos médicos a explosão dos casos de microcefalia são números ilusórios e baseados em índices anteriores não confiáveis devido a falha do Ministério da Saúde em registrar com precisão casos de defeitos congênitos. Até a epidemia de Zika, esses problemas foram varridos para debaixo do tapete.

É o que pensa o Salmo Raskin, professor de medicina genética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

“Os números são estupidamente diminuídos (mal coletados) e apenas direcionados para entender os efeitos da epidemia de Zika. O Zika está jogando luz sobre falhas históricas no nosso sistema de saúde”, esclareceu o médico.

De acordo com Raskin, a coleta de dados foi ainda mais inibida pelo fato do sistema oficial de registro de nascimentos oferecer apenas a opção para marcar um ‘check’ em uma caixa referente ao defeito, sem campo para registar a circunferência da cabeça do bebé, impossibilitando assim a documentação da gravidade ou do quão sério é o problema.

Como presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Genética, Salmo Raskin disse que pediu muitas vezes ao Ministério da Saúde para implementar um sistema para acompanhar e cuidar de defeitos congênitos – porém sem sucesso.

Microcefalia associada a sífilis e a síndrome alcoólica fetal

Devido ao abarrotamento do sistema de saúde brasileiro ficou difícil tratar as causas da microcefalia, sendo muitas delas facilmente evitáveis. Entre os exemplos de enfermidades associadas a defeitos congênitos estão a sífilis e a síndrome alcoólica fetal.

“A sífilis tinha sido erradicada aqui. Agora estamos vendo um em cada 100 bebês nascidos com sífilis.”,  revelou Salmo Raskin.

A sífilis pode ser curada com uma aplicação barata de penicilina. Raskin culpa o fracasso do governo em garantir o estoque de penicilina e os médicos mal treinados para identificar a doença.

Já sobre a síndrome alcoólica fetal, João Monteiro de Pina Neto, professor de medicina genética na Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, citou um estudo mostrando que 30% das novas mães, na região onde ele está baseado, bebiam muito durante a gravidez. Mas sempre que ele promoveu esforços visando a prevenção e alertando as autoridades de saúde locais, ele disse que foi ignorado – tanto quanto Raskin.
“Nós estamos pregando no deserto. Este é um enorme problema de saúde pública, e ninguém está se preocupando com isso”, desabafou João Monteiro de Pina Neto.

Mais frequentemente do que se pensa, diz Pina Neto, crianças com microcefalia aparecem nas instituições para deficientes – visto que a microcefalia causa graves deficiências cognitivas e motoras.

A chefe do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoas com Deficiência, Teresa Costa d’Amaral, diz que o governo está muito aquém no atendimento das necessidades de crianças com microcefalia e outros defeitos congênitos.

“Quando a criança nasce, a mãe raramente recebe instruções sobre os cuidados adequados. Então ela tem que esperar na fila para um dos poucos espaços disponíveis em centros de reabilitação.”, disse Teresa Costa d’Amaral.

Além do mais, a especialista acrescentou que a facilidades para os deficientes são geralmente encontradas em grandes cidades que ficam distantes das cidades rurais, onde muitas famílias pobres vivem.

E em escolas públicas, onde a atenção especial é inexistente, professores sobrecarregados muitas vezes deixam as crianças com deficiência ignoradas em um canto da sala de aula.

Em meio ao alarde internacional sobre o Zika vírus, o governo federal anda priorizando a pesquisa de vacinas e cuidados para mulheres grávidas e crianças afetadas pela doença. No Rio de Janeiro, as autoridades estão priorizando casos de microcefalia supostamente ligados ao Zika em um tratamento especial no Instituto Estadual do Cerébro Paulo Niemeyer.

Já para as crianças que nasceram com microcefalia e seus casos não estão associados com o Zika vírus e com o mosquito transmissor, nenhum apoio adicional foi anunciado ou disponibilizado.

Teresa Costa d’Amaral espera que a epidemia de Zika chame atenção para a negligência generalizada as crianças com deficiência no Brasil. “Mas pode ser apenas uma preocupação passageira e em seis meses, ela (a epidemia) não mais estará nas manchetes.”, finaliza Teresa.

Referência:

Alex Cuadros – Washington Post

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